Celebramos hoje a Solenidade da Anunciação do Senhor à Virgem Maria. E com esta solenidade celebramos o início do meu ministério episcopal, minha missão pastoral, nesta querida Diocese de Grajaú. Celebramos, então, a Festa do nosso sim a Deus. De fato, a Encarnação do Filho de Deus é o mistério central da fé cristã e, nele, Maria ocupa um lugar de primária grandeza. Mas qual é o significado deste mistério? E qual é a importância que tem para a nossa vida concreta?

No Evangelho de São Lucas, ouvimos as palavras do anjo a Maria: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que vai será chamado Filho de Deus» (LC 1, 35). Em Maria, o Filho de Deus faz-Se homem, cumprindo-se assim a profecia de Isaías: «A virgem conceberá e dará à luz um filho e o seu nome será “Emanuel”, porque Deus está conosco» (Is 7, 14). Sim, Jesus, o Verbo feito carne, é o Deus-conosco, que veio habitar entre nós e partilhar a nossa própria condição humana.

Também o apóstolo São João exprime isto dizendo: «O Verbo fez-se carne e habitou no meio de nós» (Jo 1, 14). A expressão «fez-Se carne» indica a realidade humana mais concreta e palpável. Em Cristo, Deus veio realmente ao mundo, entrou na nossa história, habitou no meio de nós, realizando assim a profunda aspiração do ser humano de que o mundo seja realmente uma casa para o homem. Pelo contrário, quando Deus é posto de lado, o mundo transforma-se num lugar inospitaleiro para o homem, frustrando ao mesmo tempo a verdadeira vocação da criação que é ser o espaço para a aliança, para a comunhão fraterna, para o «sim» do amor entre Deus e a humanidade que Lhe responde. Foi o que fez Maria, primícias dos crentes, com o seu «sim» dado sem reservas ao Senhor.

‘Por isso, quando contemplamos o mistério da Encarnação, não podemos, voltar os nossos olhos para Ela, enchendo-nos de admiração, gratidão e amor ao ver como o nosso Deus, para entrar no mundo, quis contar com o consentimento livre duma criatura sua. Só a partir do momento em que a Virgem respondeu ao anjo: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38), é que o Verbo eterno do Pai começou a sua existência humana no tempo. É comovente ver como Deus não só respeita a liberdade humana, mas parece ter necessidade dela. E vemos também como o início da existência terrena do Filho de Deus está marcado por um duplo «sim» à vontade salvífica do Pai: o de Cristo e o de Maria.

É esta obediência a Deus que abre as portas do mundo à verdade, à salvação, à misericórdia. De fato, Deus criou-nos como fruto do seu amor infinito; por isso viver segundo a sua vontade é o caminho para encontrar a nossa verdadeira identidade, a verdade do nosso ser, enquanto o distanciamento de Deus nos afasta de nós mesmos e precipita-nos no vazio. A obediência na; verdadeira liberdade, a autêntica redenção, que permite unirmo-nos ao amor de Jesus no seu por Se conformar com a vontade do Pai. A redenção é sempre esse processo de levar a vontade humana à plena comunhão com a vontade divina’ (Bento XVI 18 de fevereiro de 2010).

Meus irmãos, hoje louvamos a Virgem Santíssima pela sua fé e dizemos-lhe com Santa Isabel: «Bem-aventurada aquela que acreditou» (Lc 1, 45). Como disse Santo Agostinho, Maria, antes de conceber Cristo fisicamente no seu ventre, concebeu-O pela fé no seu coração; Maria acreditou e realizou-se n’Ela aquilo em que acreditava (cf. Sermão 215, 4: PL 38, 1074). Peçamos ao Senhor que aumente a nossa fé, que a torne ativa e fecunda no amor. Peçamos-lhe que sejamos capazes de acolher, como Ela, em nosso coração a Palavra de Deus e pô-la em prática com docilidade e constância.

Pelo seu papel insubstituível no Mistério de Cristo a, Virgem Maria representa a imagem e o modelo da Igreja. Esta, como fez a Mãe de Cristo, é chamada também a acolher em si o Mistério de Deus que vem habitar nela. A Igreja, corpo vivo de Cristo, tem a missão de prolongar na terra a presença salvadora de Deus, de abrir o mundo para algo maior do que ele mesmo, ou seja, para o amor e a luz de Deus.

Vale a pena, amados irmãos, dedicar toda a vida a Cristo, crescer cada dia na sua amizade e sentir-se chamado a anunciar a beleza e a bondade da própria vida a todos os homens, nossos irmãos. Encorajo-vos na vossa de semear no mundo a palavra de Deus e oferecer a todos o verdadeiro alimento que é o corpo de Cristo. Com a Páscoa já próxima, decidamo-nos, sem medos nem complexos, a seguir Jesus no seu caminho para a cruz. Aceitemos com paciência e fé qualquer contrariedade ou aflição, convictos de que Ele, com a sua ressurreição, venceu o poder do mal, que tudo obscurece, e fez amanhecer um mundo novo, o mundo de Deus, da luz, da verdade e da alegria. O Senhor não cessará de abençoar com frutos abundantes a generosidade do vosso, do nosso compromisso.

Este momento que celebramos tem sabor de chegada e tempero de envio. Como chegada sinto o dever de ser grato a Deus pelo dom da vida e pelas Pessoas que colocou no meu caminho como sinal de seu infinito amor. Entre estas pessoas meus pais que agradeço a os guardaram a minha vida e me educaram na fé católica. Agradeço à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos através da Província de Nossa Senhora da Piedade de Bahia e Sergipe pela acolhida fraterna, a formação missionária e as inúmeras oportunidades de crescimento e amadurecimento no amor pela Igreja.

Agradeço ao Arcebispo Metropolita de Vitória da Conquista – Bahia que me introduziu no ministério e na convivência episcopal. Obrigado pela sua paciência, conselhos e amizade franciscana. Penso ter compreendido muitos deles que me serão muito úteis. Agradeço a todos que de uma forma ou outra, fizeram parte de minha história até aqui, deixando um pouco de si e ajudando a formar o meu caráter. Por fim também agradeço ao Arcebispo Metropolita de São Luís do Maranhão, Dom José Belisário da Silva, que hoje me acolhe para fazer parte desta caminhada eclesial da Província Eclesiástica do Maranhão, Regional NE V da CNBB. Agradeço ao meu antecessor e Administrador Apostólico, Dom Franco Cuter pelos incansáveis serviços prestados a nossa querida Diocese de Grajaú. Deus lhe abençoe com saúde, paz e longos anos servindo ao Senhor. Agradeço a comissão que preparou e trabalhou para a realização, este bonito evento coordenado pelo nosso irmão Pe. Cristino Sílvio.

Agradeço a todos os senhores Arcebispos, Bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas, autoridades presentes ou representadas no exercício dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. A todos e a cada um dos meus queridos diocesanos que vieram participar deste dia que marca o início de nosso pastoreio.

O tempero com sabor de envio; pode ser encontrado nos ensinamentos de Nosso Senhor e da Igreja. O Papa Francisco ao falar aos bispos do Conselho Episcopal Latino Americano CELAM, no Centro de Estudos do Sumaré no dia 28 de julho de 2013, sobre o Documento de Aparecida, lembra que todo o trabalho da Conferência transcorreu em ambiente de oração e momentos litúrgicos. Enquanto os trabalhos se realizavam na cripta do santuário, a música de fundo que os acompanhava era constituída pelos cânticos e as orações dos fiéis. Eu peço ao Senhor a mesma graça de poder realizar minha missão sempre levando em conta esta música de fundo, constituída pelo trabalho silencioso do dia a dia e pelas orações e intenções de cada sacerdote, diácono, ministro, religioso (a), seminarista e leigo engajado em cada uma das pastorais e comunidades desta Diocese.

Lembremos que não estamos numa empresa material, fomos enviados a anunciar o Reino, que só será possível alcança por um espírito de fé e oração, assim estaremos guardando o pedido do Papa Francisco na nomeação para que permaneçamos continuamente unidos. Guardando também a confiança no Amor do Pai que primeiro nos amou, nos escolheu e nos envia a Serviço da Misericórdia. Assim nos envia cada dia. Peço ao Senhor do Bonfim que a minha alegria seja a alegria que já existe aqui em cada um; que o peso do meu fardo coincida com aquele que Nosso Senhor já confiou a esta diocese; que os meus sonhos passem a ser o sonho de todos por um mundo de fraternidade, de justiça, de construção da cidadania e da paz, de testemunho transparente dos bens que nosso são confiados, cuidando da integridade da criação, nossa casa comum.

A partir da V Conferência d e Aparecida, temos um projeto eclesial que é a missão continental. O Papa Francisco lembra que a Missão Continental exige gerar a consciência de uma Igreja que se organiza para servir a todos os batizados e homens de boa vontade. O discípulo de Cristo não é uma pessoa isolada em uma espiritualidade intimista, mas uma pessoa em comunidade para se dar aos outros. Portanto, a Missão Continental implica presença eclesial, engajamento, testemunho.

O Corpo de Cristo que é a Igreja terá sua forma sensível e visível para mim na Diocese de Grajaú. Hoje o Senhor me enxerta neste tronco, como mais um ramo que deverá dar frutos ao lado de tantos que já existem aqui, deixados pelos primeiros abnegados missionários lombardos que andaram por estas terras de São José de Grajaú, anunciando o Nome de Jesus. Que linda história de fé e vivência cristã deve estar escrita nas areias dos e em seus caminhos. Sobretudo escrita no coração e na caminhada discreta e silenciosa de cada família crista.

Não vimos tomar posse da Diocese, como se eu fosse um empresário, não sou dono desta diocese, mas tenho consciência de ser filho do Dono. É essencial amar e respeitar aquilo que é do Pai. Peço a todos que me ajudem a administrar as riquezas que Deus escondeu neste campo que é a Diocese de Grajaú. Deus me envia hoje para encontrar a pérola escondida neste campo. Poderíamos dizer, mas Dom Franco já encontrou a pérola. Sim, encontrou aquela que estava destinada para ele. Tenho certeza que a guardou no coração e a leva consigo com muito carinho. A mim está reservada outra pérola. Peço que rezem sempre por mim. Para que eu saiba usar de todos dos os instrumentos e métodos mais acertados para encontrar esta pérola. Mesmo que eu tenha que me desfazer de outras pérolas que no momento me parecem de valor.

Os instrumentos para este trabalho já são conhecidos por todos nós. Começa-se pelos ensinamentos de Nosso Senhor nos Evangelhos. Uma leitura desses evangelhos para o nosso tempo é feita pelos documentos do Concílio Vaticano II. Uma leitura latino-americana e caribenha do Concílio é feita pelos documentos do CELAM, muito particularmente pelo Documento de Aparecida. Uma leitura brasileira deste documento é feita pelo Documento da CNBB apresentando-nos as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, através de suas linhas de ação para o período 2015-2019: EVANGELIZAR, a partir de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária e profética, alimentada pela Palavra de Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino definitivo.

Uma Igreja em Saída: ‘Ser verdadeiro discípulo missionário exige o vínculo efetivo e afetivo com a comunidade dos que descobriram fascínio pelo mesmo Senhor. Ele sabe que exerce sua missão na Igreja, “em saída”. “Naquele ‘ide’ de Jesus, estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova ‘saída’ missionária”. O papa Francisco afirma: “prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Por isso ela sabe ir à frente, tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar às encruzilhadas dos caminhos para convidar os excluídos. Vive um desejo inesgotável de oferecer misericórdia”. A saída exige «prudência e audácia”, “coragem” e “ousadia”. A Igreja, “Mãe de coração aberto’, “casa aberta do Pai”, conclama a todos para reunir-se na fraternidade, acolher a Palavra, celebrar os sacramentos e sair em missão, no testemunho, na solidariedade e no claro anúncio da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo.”

Tão bem fundamentados, não poderemos perder a boa direção, não desperdiçaremos energias com projetos individuais, personalistas e egoístas, para isso, enfim, o Plano Pastoral Diocesano será como as placas de sinalização à beira do caminho nosso de cada dia. Juntos, Povo de Deus, Ministros Ordenados, Consagrados e Consagradas caminharemos na alegria, na aventura do evangelho, na audácia do Espírito com o oxigênio da Misericórdia.

E para garantir o espírito de família de nossa comunidade cristã, especialmente neste ano santo mariano, jamais nos esqueçamos de nos colocar sempre sob o olhar atento e maternal de nossa querida Mãe a Virgem Imaculada, a Mãe de Misericórdia, a Senhora de todas as Graças, hoje lembrada na festa da Anunciação. Unidos a São José, patrono de nossa Diocese, homem justo e obediente a vontade de Deus. Impulsionados pelo testemunho do sangue dos mártires que fecundaram a fé nestas terras maranhenses e, sob o patrocínio da caridade do Servo de Deus Frei Alberto Beretta, caminharemos juntos, a serviço da Misericórdia com o olhar fixo no Amado Senhor do Bonfim. Rezem sempre por mim! Que Deus nos abençoe!

Início da missão em 25.03.2017. Catedral Nosso Senhor do Bonfim, Grajaú-MA.